Sobre doenças mentais, preconceito e loucura

 em Coaching na prática

“Mamãe, eu não quero cuidar de loucos quando crescer!”. Minha filha tinha 5 anos e estava aos prantos quando disse esta frase. Ela se referia à minha profissão de psicóloga, e confesso que precisei segurar a risada. Dei algumas explicações simples sobre o assunto e logo ela se acalmou. Esse é um tipo de confusão é normal para uma criança que ainda está construindo seu repertório cognitivo. Mas a verdade é que muitos adultos também têm essa visão um tanto deturpada sobre psicologia e doenças mentais.

Quem nunca ouviu ou até mesmo emitiu comentários como: “Ela pediu demissão de repente, deve estar louca!”. Ou ainda: “Aquele homem que violentou a mulher só pode ser maluco”. Existe um costume de atribuir a problemas mentais atitudes que fogem dos parâmetros ditos normais, sejam elas crimes ou não. Essa abordagem é preocupante e precisa ser debatida.

Primeiro porque ainda existe muito preconceito em torno das doenças mentais, apesar de todo o avanço em seu diagnóstico e tratamento. Não é à toa que foi criado o termo psicofobia para definir (e combater) a discriminação contra quem tem depressão, ansiedade e transtornos de personalidade, por exemplo. O que essas pessoas precisam é de acolhimento e ajuda, não de intolerância e julgamento.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse.”

Joaquin Phoenix como Coringa, no filme Coringa (2019)

Por outro lado, dizer que um comportamento incomum é consequência de uma doença mental isenta a pessoa da responsabilidade por seus atos. Pode ser tanto uma forma de desvalorizar a autenticidade de alguém, quanto de tentar atenuar ou justificar desvios de comportamento que precisam ser discutidos e tratados. De todo modo, cabe a um especialista analisar cada caso e indicar o encaminhamento adequado.

Doenças mentais são diferentes de desvios de comportamento

Quando falamos do conceito de saúde mental, podemos pensar no completo bem-estar físico, mental e social, algo muito mais do complexo do que a ausência de doenças. Mas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe definição oficial de saúde mental. Isso porque a maneira como definimos o que é uma mente saudável é influenciada diretamente por crenças, diferenças culturais e julgamentos subjetivos.

Se usamos o termo loucura para indicar a força da irracionalidade, estar louco é como estar “fora de si”. No entanto, essa condição não necessariamente configura doença mental. Um ato considerado loucura pode ser simplesmente a reprodução de um desvio de comportamento, que muitas vezes tem raízes sociais, religiosas, familiares.

A loucura é justamente a condição de impossibilidade do pensamento” 

Michel Foucault, filósofo

Por exemplo, antigamente bater em crianças era considerado parte natural da educação. E ainda há pais que pensam assim. Mas também existe uma consciência maior sobre o abuso físico de crianças, bem como de suas consequências negativas para o desenvolvimento infantil. Além de uma lei que proíbe e pune adultos que praticam tais atos.

Seja qual for o caso – doença mental ou desvio de comportamento – é sempre possível, e desejável, buscar ajuda para superar suas dificuldades. Existem diversas possibilidades de tratamento para cada situação, que podem passar pela psicanálise, que é a minha abordagem, ou não.

O mais importante, ao meu ver, é estarmos sempre atentos a atitudes e crenças que precisam ser revistas. Só assim poderemos construir juntos uma sociedade mais saudável mentalmente e, quem sabe, até livre de preconceitos.

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